Hermetismo e Rosacruz



O hermetismo é uma tradição sapiencial que nasceu da culta civilização egípcia. Embora os textos filosóficos que se conservam estejam contidos fundamentalmente no Corpus Hermeticum, escrito na cidade de Alexandria dos primeiros séculos do cristianismo, podemos encontrar marcas desta sabedoria nos antiquíssimos textos das pirâmides.

Magia, astrologia, alquimia, cabala, misticismo, são alguns dos afluentes da caudalosa corrente hermética; mas também as matemáticas, as ciências naturais, a química, a astronomia ou a medicina, possuem algo, na sua origem, deste saber hermético.

Ao longo da história do Ocidente, o hermetismo defendeu a rutura com os dogmas e preconceitos, e empreendeu a busca de um conhecimento novo e mais profundo das coisas. Os sacerdotes egípcios, os filósofos gregos, os alquimistas medievais e, sobretudo, os artistas e pensadores do Renascimento, legaram um imenso acervo cultural à nossa civilização.

Com o ocaso do hermetismo, no início da era moderna, surge a tradição rosacruz. Herdeira do seu esforço por trazer luz à cegueira humana, a fraternidade rosacruz tem impulsionado, ao longo dos últimos séculos, uma reforma social e um renascimento espiritual com base na inscrição encontrada no lendário túmulo de Cristão Rosacruz:


Ex Deo nascimur, In Iesu morimur, Per Spiritum Sanctum reviviscimus


O deus egípcio Thot, o Hermes grego, é o mensageiro dos deuses que traz aos seres humanos a Palavra da Vida, a Sabedoria Universal – contida nos livros M (Mundi), traduzido por Cristão Rosacruz na Arábia, e T (Theos), que ele tinha na mão no seu túmulo.

Esse momento, descrito na Fama Fraternitatis, é desenvolvido por Fernando Pessoa no poema:

I Quando, despertos deste sono, a vida, Soubermos o que somos, e o que foi Essa queda até Corpo, essa descida Até à Noite que nos a Alma obstrui, Conheceremos pois toda a escondida Verdade do que é tudo que há ou flui? Não: nem na Alma livre é conhecida… Nem Deus, que nos criou, em Si a inclue. Deus é o Homem de outro Deus maior. Adam Supremo, também teve Queda; Também, como foi nosso Criador, Foi criado, e a Verdade lhe morreu… De além o Abismo, Sprito Seu, Lha veda; Aquém não a há no Mundo, Corpo Seu. II Mas antes era o Verbo, aqui perdido Quando a Infinita Luz, já apagada, Do Caos, chão do Ser, foi levantada Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido. Mas se a Alma sente a sua forma errada, Em si, que é Sombra, vê enfim luzido O Verbo deste Mundo, humano e ungido, Rosa Perfeita, em Deus crucificada. Então, senhores do limiar dos Céus, Podemos ir buscar além de Deus O Segredo do Mestre e o Bem profundo; Não só de aqui, mas já de nós, despertos, No sangue atual de Cristo enfim libertos Do a Deus que morre a geração do Mundo. III Ah, mas aqui, onde irreais erramos, Dormimos o que somos, e a verdade, Inda que enfim em sonhos a vejamos, Vemo-la, porque em sonho, em falsidade. Sombras buscando corpos, se os achamos Como sentir a sua realidade? Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos? Nosso toque é ausência e vacuidade. Quem desta Alma fechada nos liberta? Sem ver, ouvimos para além da sala Calmo na falsa morte a nós exposto, O Livro ocluso contra o peito posto, Nosso Pai Rósea-cruz conhece e cala.

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